top of page

Capital de giro: a conta que quebra empresa boa

Se seu negócio vende e mesmo assim falta dinheiro, o problema quase sempre é ciclo e disciplina, não “mercado”.


Dois profissionais analisando informações no notebook em uma reunião no escritório.
Dois profissionais analisando informações no notebook em uma reunião no escritório.

A tese em 1 minuto

Se você vende, trabalha, entrega, e mesmo assim o dinheiro some, provavelmente não é “falta de cliente”. É falta de capital de giro.


Capital de giro não é um conceito contábil distante. É uma realidade operacional: o intervalo entre pagar e receber. Quando esse intervalo fica longo (ou desorganizado), a empresa pode até parecer saudável no faturamento, mas está, na prática, financiando a própria operação sem perceber.


Três sinais típicos:

  • O mês “fecha” com venda boa, mas o caixa continua apertado.

  • Você depende de uma entrada específica para “respirar”.

  • Qualquer imprevisto vira crise, mesmo com demanda.


O mecanismo: por que o caixa some


A conta simples do ciclo

Capital de giro é o “combustível” que permite a empresa rodar enquanto o dinheiro não voltou para o caixa.

Uma forma simples de enxergar é pelo ciclo financeiro:


Ciclo financeiro = dias para receber + dias de estoque (se houver) – dias para pagar

  • Se você recebe em 30 dias,

  • mantém estoque por 15 dias,

  • e paga em 7 dias,o ciclo financeiro é 30 + 15 – 7 = 38 dias.


Isso significa: você banca 38 dias de operação antes do dinheiro voltar.

Não precisa ser indústria para isso acontecer. Em serviços, o “estoque” vira tempo de equipe alocada antes de faturar, ou parcelas/boletos que entram depois.


Onde costuma quebrar


Capital de giro quebra empresas boas por uma razão simples: ele é invisível quando o dono está ocupado “fazendo acontecer”.


Os pontos onde geralmente dá errado:

  1. Vende mais, mas piora o prazo: para fechar, aceita receber em 45/60 dias. O lucro existe, mas o dinheiro não está lá.

  2. Cresce o custo antes do recebimento: contrata, aumenta estrutura, compra insumo — e só depois recebe.

  3. Estoque cresce sem controle: compra demais por medo de faltar, ou por desconto do fornecedor. O desconto “no papel” vira caixa preso.

  4. Inadimplência e atrasos viram normal: o “vai entrar” substitui dinheiro real.

  5. Mistura de caixa: retirada fora de regra, pagamentos desalinhados, despesas pessoais travestidas de operação. O ciclo fica impossível de ler.



Implicações (1ª / 2ª / 3ª ordem)


1ª ordem (imediata):

  • Falta previsibilidade. Você vive reagindo.

  • Prioriza urgência, não o que é importante.

  • Time sente instabilidade: fornecedor pressiona, rotina quebra.


2ª ordem (econômica):

  • Você passa a financiar o negócio com improviso: limite, parcelamento, “empurra com a barriga”.

  • O custo financeiro come a margem.

  • Você perde poder de negociação (paga mais caro porque compra no susto).


3ª ordem (governança e decisão):

  • A empresa vira refém de caixa, não de estratégia.

  • O dono confunde “crescer” com “aumentar trabalho”.

  • A decisão vira ansiedade: “preciso vender agora” substitui “preciso vender certo”.


O que realmente importa daqui pra frente


Se você quiser dominar capital de giro sem virar especialista, olhe para estas três variáveis, sempre:

  1. Prazo médio de recebimento (DSO, em português: dias para receber) Quanto tempo, em média, seu dinheiro demora para voltar?


  2. Prazo médio de pagamento (DPO: dias para pagar) Em quantos dias, em média, você paga fornecedores e obrigações?


  3. Dinheiro preso (estoque + inadimplência + projetos em andamento sem faturar) Tudo que parece “ativo” mas é caixa parado.


O objetivo não é zerar ciclo. É reduzir e estabilizar, até virar previsível.



O que fazer em 7 dias


Aqui vai um plano simples, executável, sem burocracia.


Dia 1 — Faça o “raio-x” do caixa real

  • Liste saldos bancários e o que é compromisso dos próximos 7 dias.

  • Separe: o que é obrigatório e o que é adiável.


Dia 2 — Monte uma régua de recebimento (30 dias)

  • Liste tudo que deve entrar nos próximos 30 dias: valor, cliente, data, status.

  • Marque em vermelho o que depende de “promessa” ou histórico ruim.


Dia 3 — Corte o ruído: defina uma regra de saída

  • Estabeleça: nenhum pagamento fora do combinado sem revisão.

  • Coloque um “limite de alçada” (ex.: acima de X, só com validação).


Dia 4 — Ataque o prazo: renegocie 3 coisas

  • Uma renegociação com cliente (adiantamento, entrada, desconto por antecipação).

  • Uma renegociação com fornecedor (mais prazo, parcelamento sem juros, calendário).

  • Uma renegociação interna (reduzir compras/estoque, segurar contratação, ajustar retirada).


Dia 5 — Trave o “dinheiro preso”

  • Estoque: defina mínimo/máximo, pare de comprar no impulso.

  • Inadimplência: defina rotina de cobrança com data e dono.

  • Projetos: crie marcos de faturamento (entrada, meio, entrega).


Dia 6 — Crie uma reserva operacional mínima

  • Defina um alvo realista: “1 semana de custos fixos” é um começo.

  • Não é para “ficar rico”. É para parar de viver no fio.


Dia 7 — Institua um ritual semanal de 30 minutosPauta fixa:

  • Caixa disponível hoje

  • Entradas confirmadas 7/14/30 dias

  • Saídas obrigatórias 7/14/30 dias

  • 3 ações da semana para reduzir ciclo


Esse ritual é onde o controle nasce. Sem isso, o capital de giro volta a ficar invisível.


Erros comuns


  • Confundir lucro com caixa: lucro pode existir e o dinheiro não.

  • Vender prazo sem precificar prazo: receber em 60 dias tem custo.

  • Comprar estoque como “investimento” sem giro comprovado: vira caixa preso.

  • Tratar inadimplência como parte do jogo: vira cultura e cresce.

  • Não ter regra de retirada/pagamento: o caixa vira saco sem fundo.


O que levar daqui


  • Capital de giro é o intervalo entre pagar e receber, e ele decide se você tem paz ou crise.

  • Três variáveis dominam o jogo: prazo de recebimento, prazo de pagamento e dinheiro preso.

  • Controle nasce de um ritual semanal simples e de decisões de prazo disciplinadas.


Mini-glossário


Capital de giro: dinheiro necessário para sustentar a operação até o recebimento das vendas.

Ciclo financeiro: dias que a empresa banca a operação antes do dinheiro voltar ao caixa.

DSO (dias para receber): prazo médio de recebimento de clientes.

DPO (dias para pagar): prazo médio de pagamento a fornecedores.

Dinheiro preso: estoque, inadimplência e trabalho realizado ainda não transformado em caixa.


Checklist prático


  1. Tenho uma régua de recebimento dos próximos 30 dias com status por cliente

  2.  Sei meu prazo médio de recebimento e meu prazo médio de pagamento

  3.  Tenho regra clara de pagamentos (o que sai, quando e com que alçada)

  4.  Tenho rotina semanal de 30 minutos para revisar caixa, entradas e saídas

  5.  Estoque tem mínimo/máximo e compra segue regra, não emoção

  6.  Inadimplência tem rotina de cobrança com dono e data

  7.  Projetos/serviços têm marcos de faturamento (entrada/meio/final)

  8.  Tenho uma reserva operacional mínima em construção





Comentários


bottom of page