Capital de giro: a conta que quebra empresa boa
- Eduardo Vasconcelos
- há 19 horas
- 4 min de leitura
Se seu negócio vende e mesmo assim falta dinheiro, o problema quase sempre é ciclo e disciplina, não “mercado”.

A tese em 1 minuto
Se você vende, trabalha, entrega, e mesmo assim o dinheiro some, provavelmente não é “falta de cliente”. É falta de capital de giro.
Capital de giro não é um conceito contábil distante. É uma realidade operacional: o intervalo entre pagar e receber. Quando esse intervalo fica longo (ou desorganizado), a empresa pode até parecer saudável no faturamento, mas está, na prática, financiando a própria operação sem perceber.
Três sinais típicos:
O mês “fecha” com venda boa, mas o caixa continua apertado.
Você depende de uma entrada específica para “respirar”.
Qualquer imprevisto vira crise, mesmo com demanda.
O mecanismo: por que o caixa some
A conta simples do ciclo
Capital de giro é o “combustível” que permite a empresa rodar enquanto o dinheiro não voltou para o caixa.
Uma forma simples de enxergar é pelo ciclo financeiro:
Ciclo financeiro = dias para receber + dias de estoque (se houver) – dias para pagar
Se você recebe em 30 dias,
mantém estoque por 15 dias,
e paga em 7 dias,o ciclo financeiro é 30 + 15 – 7 = 38 dias.
Isso significa: você banca 38 dias de operação antes do dinheiro voltar.
Não precisa ser indústria para isso acontecer. Em serviços, o “estoque” vira tempo de equipe alocada antes de faturar, ou parcelas/boletos que entram depois.
Onde costuma quebrar
Capital de giro quebra empresas boas por uma razão simples: ele é invisível quando o dono está ocupado “fazendo acontecer”.
Os pontos onde geralmente dá errado:
Vende mais, mas piora o prazo: para fechar, aceita receber em 45/60 dias. O lucro existe, mas o dinheiro não está lá.
Cresce o custo antes do recebimento: contrata, aumenta estrutura, compra insumo — e só depois recebe.
Estoque cresce sem controle: compra demais por medo de faltar, ou por desconto do fornecedor. O desconto “no papel” vira caixa preso.
Inadimplência e atrasos viram normal: o “vai entrar” substitui dinheiro real.
Mistura de caixa: retirada fora de regra, pagamentos desalinhados, despesas pessoais travestidas de operação. O ciclo fica impossível de ler.
Implicações (1ª / 2ª / 3ª ordem)
1ª ordem (imediata):
Falta previsibilidade. Você vive reagindo.
Prioriza urgência, não o que é importante.
Time sente instabilidade: fornecedor pressiona, rotina quebra.
2ª ordem (econômica):
Você passa a financiar o negócio com improviso: limite, parcelamento, “empurra com a barriga”.
O custo financeiro come a margem.
Você perde poder de negociação (paga mais caro porque compra no susto).
3ª ordem (governança e decisão):
A empresa vira refém de caixa, não de estratégia.
O dono confunde “crescer” com “aumentar trabalho”.
A decisão vira ansiedade: “preciso vender agora” substitui “preciso vender certo”.
O que realmente importa daqui pra frente
Se você quiser dominar capital de giro sem virar especialista, olhe para estas três variáveis, sempre:
Prazo médio de recebimento (DSO, em português: dias para receber) Quanto tempo, em média, seu dinheiro demora para voltar?
Prazo médio de pagamento (DPO: dias para pagar) Em quantos dias, em média, você paga fornecedores e obrigações?
Dinheiro preso (estoque + inadimplência + projetos em andamento sem faturar) Tudo que parece “ativo” mas é caixa parado.
O objetivo não é zerar ciclo. É reduzir e estabilizar, até virar previsível.
O que fazer em 7 dias
Aqui vai um plano simples, executável, sem burocracia.
Dia 1 — Faça o “raio-x” do caixa real
Liste saldos bancários e o que é compromisso dos próximos 7 dias.
Separe: o que é obrigatório e o que é adiável.
Dia 2 — Monte uma régua de recebimento (30 dias)
Liste tudo que deve entrar nos próximos 30 dias: valor, cliente, data, status.
Marque em vermelho o que depende de “promessa” ou histórico ruim.
Dia 3 — Corte o ruído: defina uma regra de saída
Estabeleça: nenhum pagamento fora do combinado sem revisão.
Coloque um “limite de alçada” (ex.: acima de X, só com validação).
Dia 4 — Ataque o prazo: renegocie 3 coisas
Uma renegociação com cliente (adiantamento, entrada, desconto por antecipação).
Uma renegociação com fornecedor (mais prazo, parcelamento sem juros, calendário).
Uma renegociação interna (reduzir compras/estoque, segurar contratação, ajustar retirada).
Dia 5 — Trave o “dinheiro preso”
Estoque: defina mínimo/máximo, pare de comprar no impulso.
Inadimplência: defina rotina de cobrança com data e dono.
Projetos: crie marcos de faturamento (entrada, meio, entrega).
Dia 6 — Crie uma reserva operacional mínima
Defina um alvo realista: “1 semana de custos fixos” é um começo.
Não é para “ficar rico”. É para parar de viver no fio.
Dia 7 — Institua um ritual semanal de 30 minutosPauta fixa:
Caixa disponível hoje
Entradas confirmadas 7/14/30 dias
Saídas obrigatórias 7/14/30 dias
3 ações da semana para reduzir ciclo
Esse ritual é onde o controle nasce. Sem isso, o capital de giro volta a ficar invisível.
Erros comuns
Confundir lucro com caixa: lucro pode existir e o dinheiro não.
Vender prazo sem precificar prazo: receber em 60 dias tem custo.
Comprar estoque como “investimento” sem giro comprovado: vira caixa preso.
Tratar inadimplência como parte do jogo: vira cultura e cresce.
Não ter regra de retirada/pagamento: o caixa vira saco sem fundo.
O que levar daqui
Capital de giro é o intervalo entre pagar e receber, e ele decide se você tem paz ou crise.
Três variáveis dominam o jogo: prazo de recebimento, prazo de pagamento e dinheiro preso.
Controle nasce de um ritual semanal simples e de decisões de prazo disciplinadas.
Mini-glossário
Capital de giro: dinheiro necessário para sustentar a operação até o recebimento das vendas.
Ciclo financeiro: dias que a empresa banca a operação antes do dinheiro voltar ao caixa.
DSO (dias para receber): prazo médio de recebimento de clientes.
DPO (dias para pagar): prazo médio de pagamento a fornecedores.
Dinheiro preso: estoque, inadimplência e trabalho realizado ainda não transformado em caixa.
Checklist prático
Tenho uma régua de recebimento dos próximos 30 dias com status por cliente
Sei meu prazo médio de recebimento e meu prazo médio de pagamento
Tenho regra clara de pagamentos (o que sai, quando e com que alçada)
Tenho rotina semanal de 30 minutos para revisar caixa, entradas e saídas
Estoque tem mínimo/máximo e compra segue regra, não emoção
Inadimplência tem rotina de cobrança com dono e data
Projetos/serviços têm marcos de faturamento (entrada/meio/final)
Tenho uma reserva operacional mínima em construção

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